Archive for the daydream Category

Bom dia, brainstorm!

Posted in daydream on 15 de dezembro de 2010 by alexandrecopes

Se na lua então mora um coelho, está explicado o porquê das cenouras que tombam sobre o meu telhado.

Sentar três dias seguidos na mesma sacada e esperar a noite chegar significa que tem algo errado.

Quando chove muito sobre o tomateiro da minha sacadinha eu sinto o esforço que faço para suportar o peso das tuas lágrimas.

Às vezes as músicas se tornam iguais porque talvez os meus ouvidos já estejam cansados de fantasiar às custas alheias.

Descobri que a pausa para o cigarro é mais reflexiva que os 30 minutos que converso com minha analista. Ou seja, ando fumando de mais.

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A saudade

Posted in daydream on 20 de outubro de 2010 by alexandrecopes

Ela pertence a tudo como um parasita que se conecta ao corpo, não diferentemente de qualquer outro verme, e a nutrimos a cada vez que sentimos o gosto das coisas tristes ou da velha torta de maçã; a saudade é onipresente, aparece quando pensamos ou sentimos as coisas que deixamos o tempo levar; ela se materializa através do ínfimo das coisas, como, por exemplo, a partir das grandes enxurradas; e em dias assim, quando pensamos estar distante dos que amamos; a saudade não existe sem a chuva; mesmo que após o seu passar, o da chuva, tenhamos a sensação de estarmos lavados por dentro, mesmo que antes choremos por fora. E então apenas chuva passa. E a nossa camisa encharca mesmo assim. A saudade fede, porque se encontra sempre entranhada ao mofo das fotografias, nas coisas escondidas no maleiro, nas cartas que encontramos acidentalmente; e então ela aparece como algo cortante e nos estripa e nos encharca outra vez, não como as lágrimas que nos molham por fora, mas como uma torneira que nos cura a ressaca por dentro. E nos corrói o estômago; E assim as coisas são, umas sobre as outras; tempo sobre o tempo em tudo aquilo que guardamos, seja na materialidade das cartas perdidas no velho maleiro ou nas lembranças arquivadas nas gavetas mais profundas do nosso âmago; ela é nada mais do que a própria poeira sobre os ponteiros dos relógios, que por sua vez só paira sobre eles porque a eles se conecta para que possa existir; e mesmo assim paira enquanto giram, e é camada fina enquanto presente que deixa de existir, subseqüentemente se transformando em camada grossa enquanto coisa que passou; e assim percebo a impossibilidade da saudade mediante o futuro; não posso a sentir sobre aquilo que não sei ou sobre as coisas que ainda não vieram; e sendo assim percebo o tempo como uma coisa só, pois enquanto presente, já é passado e o futuro, uma extensão daquilo que será e deixará de ser quando então o for; e noto que assim é a saudade, como coisa que a tudo pertence, necessitando do tempo para que possa existir e da nossa vontade para que possa reinar.

Não deixo de notar e sentir que a saudade age sobre estas camadas do desejo, indissociáveis do tempo, depositando sobre elas finas outras camadas de sua materialidade que se graduam sobre diferentes níveis, e quanto mais espessas, maior o peso desse sentimento hospedeiro sobre o nosso peito, maior o estrago sobre o velho relógio da cozinha; e aí percebo que quando a tenho é porque desejo; e quando percebo, perco a materialidade das horas e o tic-tac do relógio contrabandeado se vai; e mesmo sendo assim, ainda ficam sobre os ponteiros do tempo – que independentemente do relógio nos envelhece – , uma pá de poeira, de pele morta sobre o carpete desse quarto escuro, uma coisa azul e amarga, com carne por fora e espinho por dentro, como diria Caio Fernando Abreu. Porque existe enquanto coisa que se hospeda por fora, depositando profundamente, um balde de poeira sobre tudo o que fica por dentro; e mesmo que se quebrem os ponteiros, a fragilidade maior se dá sobre o tempo que corre internamente. A sinto como um fruto que mesmo exótico e aparentemente venenoso, nos faz salivar, e então enquanto o provamos, como quem perdido se encontra em uma selva, mesmo sentindo o fel de sua carne macia e suculenta, que se desmancha por fora, mas nos espeta por dentro, seguimos a digeri-lo até que o sentimos entalar em nossa garganta, como um choro abafado pela vergonha; e mesmo assim o engolimos. Porque temos fome de sua imaterialidade.

Penicilina

Posted in daydream on 18 de outubro de 2010 by alexandrecopes



É muito possível que no meio disso tudo, haja uma sensação de querer ser o que no entanto não se pode; há três meses que abriga um quarto de hospital e por isso decidiu virar cigana a fim de testar o futuro. Punha as cartas ao marido enfermo e ele sobre o leito apenas esperava que de vez por todas soubesse ler o baralho. Os meses eram longos, ainda não havia uma resposta definitiva para que o homem voltasse à sua casa; estava longe de sua cidade em uma clínica cercada por fartas árvores, assim como um pequeno riacho ao lado esquerdo de quem adentrava os portões e por pequenos casebres dispostos ao redor do terreno úmido. Tudo por lá era imensamente silencioso. Ele queria ser menos fraco do que pôde, ela simplesmente foi mais forte do que imaginava. Ao partirem, a cigana chorou, as enfermeiras desabaram, o cão vagabundo faleceu. Todos levariam em suas carteiras fotos que fizeram escondidos do simpático casal. Eles retornaram à abandonada casa. O carro de distanciava do hospital enquanto o homem apertava a mão de sua mulher no exato momento em que uma das enfermeiras abria as janelas do quarto derramando uma lágrima sobre o carpete verde. O quarto cheirava a lembranças.

Pontos em branco

Posted in daydream on 13 de agosto de 2010 by alexandrecopes

Correm os sopros vindos do mar. Gelo e ventania gritam à beira do cais. Os homens murmuram solidão e os tocos de cigarro voam rumo às ondas que se esfarelam sobre os rochedos. Os corpos dançam. Triste e amargurado fim.

Esvaiam-se as muralhas, as colinas e os corpos à beira do abismo se enegrecem pela palidez matinal. O casal senta em profunda lamúria e chora. Mulheres ainda bêbadas se esvaem em golfos de tristeza. Um poeta reage. Uma onda é manchada de vermelho. Afoga-se o seu amor em profundo silêncio. O homem à beira do abismo, recém-casado, recém-viúvo.

Correram pela areia, gaivotas. Correram. E o poeta ergueu-se diante de si mesmo e lamentou estar vivo. Correu, o tempo. Confundiam-se os dias e as noites, os meses e os anos.

Nas ruas, a velhice. As pedras nas calçadas, sobrepostas por uma vida. Sobre a chaminé torta, um gato cadavérico a lamber-se e a murmurar tristeza e solidão. O poeta reagiu. Ergueu-se diante de si mesmo e pensou. As mortas manhãs, repetidas. As ondas a se suicidarem diante dos homens à beira do cais. Algumas mulheres a morrerem de solidão. Gatos ronronando entre becos e carcaças. Correram, as gaivotas. Voaram, os pensamentos. Um grande amor a falecer.

Erguido diante de si mesmo, o poeta lamentou. Lamentou vivo estar e não sofrer. Lamentou ter de esperar a inspiração chegar, afim de que tivesse seu momento de lamúria à beira de um abismo enegrecido pela palidez matinal. Afim de que pudesse em frases, sentir no peito uma pontada de tristeza. Afim de que pudesse no seu último instante, ronronar e lamber as próprias costelas sobre uma velha chaminé e nada mais.

Primitivo

Posted in daydream on 11 de agosto de 2010 by alexandrecopes

SABER ESCREVER NÃO SIGNIFICA SABER PENSAR ALÉM DO QUE SE ESCREVE

TODOS OS QUE ESCREVEM, O FAZEM PORQUE NÃO PENSAM

AINDA MAIS QUANDO ESCREVER SE TORNA NECESSIDADE

QUANDO ESCREVER SE TORNA UM ATO PRIMITIVO

COMO COMER PORQUE SE SENTE FOME

OU TRANSAR PORQUE SE SENTE TESÃO

ESCREVER NÃO É MUITO DIFERENTE DISSO

E COMO UM ATO PRIMITIVO, SE FAZ SEM PENSAR, UM POUCO

A NECESSIDADE É GRANDE PORQUE O TORMENTO É MAIOR AINDA

PORQUE É COMO SE TIVESSE UM VÍCIO MESCLADO A UM DESESPERO

QUE O FAZ BEBER DAS PRÓPRIAS PALAVRAS E O TORNA AINDA MAIS DESESPERADO POR QUERER FALAR E ASSIM BEBER MAIS

E NUNCA PARAR DE DIZER

SEM OLHAR PARA O QUE SE FEZ

PORQUE SE QUER BEBER MAIS

NA MESMA INTENSIDADE QUE SE QUER FALAR

SEJA DIZER POR DIZER

BEBER POR BEBER.

INSUPORTÁVEL ENGANO

Posted in daydream on 18 de dezembro de 2009 by alexandrecopes

A luz pôs-se azul-enegrecida e o vento mergulhou em minha testa. Os pôsteres de meus clássicos se desprenderam. A chuva parecia chegado. As roupas estavam no varal e eu pouco me importei. Tudo girava. Desmaiei. A chuva alagou meu sono que até então parecia sempiterno. Acordei, alcoolizado. E tudo parecia ter ocorrido havia tanto tempo, mas o relógio estático estava. A chuva estava por vir. A vizinha gritou meu nome, mas fiz-me de desconhecido e ignorei sua patética atenção às minhas bagunças na varanda e pulei da cama em direção ao banheiro. Na parede, minha sombra projetada em forma cadavérica.

As calças rasgadas, camisa ultrapassada, geladeira vazia, estômago dolorido, varanda maltrapilha e a vizinha a fumar em sua sacada alaranjada. Corri entre as cadeiras da cozinha. O telefone aos berros se comunicava comigo. Era tarde. Era engano mesmo assim. Fiz-me de desconhecido e ignorei seus gemidos repetitivos.

A campainha foi apertada e desci as escadas, como quem foge de um dragão em labaredas. Era engano. Perguntavam sobre o homem que morava no fim da rua. Era eu, mas fiz-me de desentendido e ignorei a voz que tagarelava, empurrando-me papéis sobre os olhos, dizendo haver uma entrega. Assinei. Só poderia ser engano. Subi novamente. Duas horas após o chamado, resolvi abrir a porta. Já estava deitado novamente, mas senti um desejo absolutamente infantil de saber o que se encontrava naquela caixa que o entregador havia deixado nas escadarias. Como uma criança tomada por um sentimento de vasculhar velhas gavetas à procura de porcarias insignificantes as quais possuem importante significado para elas, resolvi descer novamente.

Verazmente a recolhi, amassada e cheirando a papel, o que me enjoou novamente. Deposite-a sobre minha cama e desprendi as etiquetas uma por uma. Dentro dela, uma pequena caixa de madeira. Abri. E nela um bilhete. Abri. E nele escrito: Acorde!

A chuva por sua vez, molhava o quarto. A vizinha gritava, o telefone e a campainha por engano também…Chuva, rua, vizinha, vento, caixa, bilhete.

E os olhos se afastaram de sua varanda, de sua rua, cruzando entre as árvores, entre os bueiros, entre as vitrinas, rapidamente entre as multidões, velozmente entre as conversas, as frestas, as portas, as salas, as famílias, o abismo, o vácuo e então ele acordou, vomitando, lavando o vaso de sentimentos. Tudo devido a um grande engano.

STAND UP TONIGHT!

Posted in daydream on 29 de outubro de 2009 by alexandrecopes

Alguém já pensou em stand up? Em ser um? Eu acho que já pensei; pensei hoje; pensamos juntos eu e uma colega, porém nossas piadas iam ser tão malignas; iam ser impiedosas, talvez por que ela seja uma leonina ácida e eu também seja um ou talvez porque façamos artes visuais e assim parece que o nosso mundo é uma caixa cheia de tudo.. isso quem saiba assuste de vez em quando, mas nao me assusto mais com “piadas maldosas”, sejam dos outros ou minhas… problemas são os outros, que nunca entendem as nossas piadas, as nossas risadas, a nossa criatividade insuportável, a nossa cara de louco e os nossos dedos sujos de tinta.