A saudade

Ela pertence a tudo como um parasita que se conecta ao corpo, não diferentemente de qualquer outro verme, e a nutrimos a cada vez que sentimos o gosto das coisas tristes ou da velha torta de maçã; a saudade é onipresente, aparece quando pensamos ou sentimos as coisas que deixamos o tempo levar; ela se materializa através do ínfimo das coisas, como, por exemplo, a partir das grandes enxurradas; e em dias assim, quando pensamos estar distante dos que amamos; a saudade não existe sem a chuva; mesmo que após o seu passar, o da chuva, tenhamos a sensação de estarmos lavados por dentro, mesmo que antes choremos por fora. E então apenas chuva passa. E a nossa camisa encharca mesmo assim. A saudade fede, porque se encontra sempre entranhada ao mofo das fotografias, nas coisas escondidas no maleiro, nas cartas que encontramos acidentalmente; e então ela aparece como algo cortante e nos estripa e nos encharca outra vez, não como as lágrimas que nos molham por fora, mas como uma torneira que nos cura a ressaca por dentro. E nos corrói o estômago; E assim as coisas são, umas sobre as outras; tempo sobre o tempo em tudo aquilo que guardamos, seja na materialidade das cartas perdidas no velho maleiro ou nas lembranças arquivadas nas gavetas mais profundas do nosso âmago; ela é nada mais do que a própria poeira sobre os ponteiros dos relógios, que por sua vez só paira sobre eles porque a eles se conecta para que possa existir; e mesmo assim paira enquanto giram, e é camada fina enquanto presente que deixa de existir, subseqüentemente se transformando em camada grossa enquanto coisa que passou; e assim percebo a impossibilidade da saudade mediante o futuro; não posso a sentir sobre aquilo que não sei ou sobre as coisas que ainda não vieram; e sendo assim percebo o tempo como uma coisa só, pois enquanto presente, já é passado e o futuro, uma extensão daquilo que será e deixará de ser quando então o for; e noto que assim é a saudade, como coisa que a tudo pertence, necessitando do tempo para que possa existir e da nossa vontade para que possa reinar.

Não deixo de notar e sentir que a saudade age sobre estas camadas do desejo, indissociáveis do tempo, depositando sobre elas finas outras camadas de sua materialidade que se graduam sobre diferentes níveis, e quanto mais espessas, maior o peso desse sentimento hospedeiro sobre o nosso peito, maior o estrago sobre o velho relógio da cozinha; e aí percebo que quando a tenho é porque desejo; e quando percebo, perco a materialidade das horas e o tic-tac do relógio contrabandeado se vai; e mesmo sendo assim, ainda ficam sobre os ponteiros do tempo – que independentemente do relógio nos envelhece – , uma pá de poeira, de pele morta sobre o carpete desse quarto escuro, uma coisa azul e amarga, com carne por fora e espinho por dentro, como diria Caio Fernando Abreu. Porque existe enquanto coisa que se hospeda por fora, depositando profundamente, um balde de poeira sobre tudo o que fica por dentro; e mesmo que se quebrem os ponteiros, a fragilidade maior se dá sobre o tempo que corre internamente. A sinto como um fruto que mesmo exótico e aparentemente venenoso, nos faz salivar, e então enquanto o provamos, como quem perdido se encontra em uma selva, mesmo sentindo o fel de sua carne macia e suculenta, que se desmancha por fora, mas nos espeta por dentro, seguimos a digeri-lo até que o sentimos entalar em nossa garganta, como um choro abafado pela vergonha; e mesmo assim o engolimos. Porque temos fome de sua imaterialidade.

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