Arquivo para outubro, 2010

A saudade

Posted in daydream on 20 de outubro de 2010 by alexandrecopes

Ela pertence a tudo como um parasita que se conecta ao corpo, não diferentemente de qualquer outro verme, e a nutrimos a cada vez que sentimos o gosto das coisas tristes ou da velha torta de maçã; a saudade é onipresente, aparece quando pensamos ou sentimos as coisas que deixamos o tempo levar; ela se materializa através do ínfimo das coisas, como, por exemplo, a partir das grandes enxurradas; e em dias assim, quando pensamos estar distante dos que amamos; a saudade não existe sem a chuva; mesmo que após o seu passar, o da chuva, tenhamos a sensação de estarmos lavados por dentro, mesmo que antes choremos por fora. E então apenas chuva passa. E a nossa camisa encharca mesmo assim. A saudade fede, porque se encontra sempre entranhada ao mofo das fotografias, nas coisas escondidas no maleiro, nas cartas que encontramos acidentalmente; e então ela aparece como algo cortante e nos estripa e nos encharca outra vez, não como as lágrimas que nos molham por fora, mas como uma torneira que nos cura a ressaca por dentro. E nos corrói o estômago; E assim as coisas são, umas sobre as outras; tempo sobre o tempo em tudo aquilo que guardamos, seja na materialidade das cartas perdidas no velho maleiro ou nas lembranças arquivadas nas gavetas mais profundas do nosso âmago; ela é nada mais do que a própria poeira sobre os ponteiros dos relógios, que por sua vez só paira sobre eles porque a eles se conecta para que possa existir; e mesmo assim paira enquanto giram, e é camada fina enquanto presente que deixa de existir, subseqüentemente se transformando em camada grossa enquanto coisa que passou; e assim percebo a impossibilidade da saudade mediante o futuro; não posso a sentir sobre aquilo que não sei ou sobre as coisas que ainda não vieram; e sendo assim percebo o tempo como uma coisa só, pois enquanto presente, já é passado e o futuro, uma extensão daquilo que será e deixará de ser quando então o for; e noto que assim é a saudade, como coisa que a tudo pertence, necessitando do tempo para que possa existir e da nossa vontade para que possa reinar.

Não deixo de notar e sentir que a saudade age sobre estas camadas do desejo, indissociáveis do tempo, depositando sobre elas finas outras camadas de sua materialidade que se graduam sobre diferentes níveis, e quanto mais espessas, maior o peso desse sentimento hospedeiro sobre o nosso peito, maior o estrago sobre o velho relógio da cozinha; e aí percebo que quando a tenho é porque desejo; e quando percebo, perco a materialidade das horas e o tic-tac do relógio contrabandeado se vai; e mesmo sendo assim, ainda ficam sobre os ponteiros do tempo – que independentemente do relógio nos envelhece – , uma pá de poeira, de pele morta sobre o carpete desse quarto escuro, uma coisa azul e amarga, com carne por fora e espinho por dentro, como diria Caio Fernando Abreu. Porque existe enquanto coisa que se hospeda por fora, depositando profundamente, um balde de poeira sobre tudo o que fica por dentro; e mesmo que se quebrem os ponteiros, a fragilidade maior se dá sobre o tempo que corre internamente. A sinto como um fruto que mesmo exótico e aparentemente venenoso, nos faz salivar, e então enquanto o provamos, como quem perdido se encontra em uma selva, mesmo sentindo o fel de sua carne macia e suculenta, que se desmancha por fora, mas nos espeta por dentro, seguimos a digeri-lo até que o sentimos entalar em nossa garganta, como um choro abafado pela vergonha; e mesmo assim o engolimos. Porque temos fome de sua imaterialidade.

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Penicilina

Posted in daydream on 18 de outubro de 2010 by alexandrecopes



É muito possível que no meio disso tudo, haja uma sensação de querer ser o que no entanto não se pode; há três meses que abriga um quarto de hospital e por isso decidiu virar cigana a fim de testar o futuro. Punha as cartas ao marido enfermo e ele sobre o leito apenas esperava que de vez por todas soubesse ler o baralho. Os meses eram longos, ainda não havia uma resposta definitiva para que o homem voltasse à sua casa; estava longe de sua cidade em uma clínica cercada por fartas árvores, assim como um pequeno riacho ao lado esquerdo de quem adentrava os portões e por pequenos casebres dispostos ao redor do terreno úmido. Tudo por lá era imensamente silencioso. Ele queria ser menos fraco do que pôde, ela simplesmente foi mais forte do que imaginava. Ao partirem, a cigana chorou, as enfermeiras desabaram, o cão vagabundo faleceu. Todos levariam em suas carteiras fotos que fizeram escondidos do simpático casal. Eles retornaram à abandonada casa. O carro de distanciava do hospital enquanto o homem apertava a mão de sua mulher no exato momento em que uma das enfermeiras abria as janelas do quarto derramando uma lágrima sobre o carpete verde. O quarto cheirava a lembranças.