Arquivo para agosto, 2010

Pontos em branco

Posted in daydream on 13 de agosto de 2010 by alexandrecopes

Correm os sopros vindos do mar. Gelo e ventania gritam à beira do cais. Os homens murmuram solidão e os tocos de cigarro voam rumo às ondas que se esfarelam sobre os rochedos. Os corpos dançam. Triste e amargurado fim.

Esvaiam-se as muralhas, as colinas e os corpos à beira do abismo se enegrecem pela palidez matinal. O casal senta em profunda lamúria e chora. Mulheres ainda bêbadas se esvaem em golfos de tristeza. Um poeta reage. Uma onda é manchada de vermelho. Afoga-se o seu amor em profundo silêncio. O homem à beira do abismo, recém-casado, recém-viúvo.

Correram pela areia, gaivotas. Correram. E o poeta ergueu-se diante de si mesmo e lamentou estar vivo. Correu, o tempo. Confundiam-se os dias e as noites, os meses e os anos.

Nas ruas, a velhice. As pedras nas calçadas, sobrepostas por uma vida. Sobre a chaminé torta, um gato cadavérico a lamber-se e a murmurar tristeza e solidão. O poeta reagiu. Ergueu-se diante de si mesmo e pensou. As mortas manhãs, repetidas. As ondas a se suicidarem diante dos homens à beira do cais. Algumas mulheres a morrerem de solidão. Gatos ronronando entre becos e carcaças. Correram, as gaivotas. Voaram, os pensamentos. Um grande amor a falecer.

Erguido diante de si mesmo, o poeta lamentou. Lamentou vivo estar e não sofrer. Lamentou ter de esperar a inspiração chegar, afim de que tivesse seu momento de lamúria à beira de um abismo enegrecido pela palidez matinal. Afim de que pudesse em frases, sentir no peito uma pontada de tristeza. Afim de que pudesse no seu último instante, ronronar e lamber as próprias costelas sobre uma velha chaminé e nada mais.

Cor(a)ção

Posted in Breviedades on 12 de agosto de 2010 by alexandrecopes

         Coração:

  • Ato de dar cor a uma ação;
  • Ato pulsante sobre órgão monocromático a fim de gerar cor sobre o mesmo;
  • fruto de uma ação colorante;
  • leva 45 segundos para distribuir sangue a todo corpo, bem como para espalhar sentimentos envenenados da ponta dos pés ao último fio de cabelo;
  • Bomba pulsante, destina tempo de vida, incluindo em que momento se deve chorar ou sorrir.
  • Vermelhos, muitos, mas pouco importa em que tom se encontram, visto que em sua maioria são sintéticos ou compostos por confusão acumulada;
  • Coração também é ação de dar cor a um pedaço de carne esbranquiçado ou simplesmente ação dolorosa incessantemente pulsante;
  • Bate 100 000 vezes ao dia,, assim como bombeia 7 500 litros de sentimentos;
  • Seu peso em média é de 400 gramas; equivale a uma mão fechada localizada no meio do peito sob o osso esterno, deslocado levemente para a esquerda.

Primitivo

Posted in daydream on 11 de agosto de 2010 by alexandrecopes

SABER ESCREVER NÃO SIGNIFICA SABER PENSAR ALÉM DO QUE SE ESCREVE

TODOS OS QUE ESCREVEM, O FAZEM PORQUE NÃO PENSAM

AINDA MAIS QUANDO ESCREVER SE TORNA NECESSIDADE

QUANDO ESCREVER SE TORNA UM ATO PRIMITIVO

COMO COMER PORQUE SE SENTE FOME

OU TRANSAR PORQUE SE SENTE TESÃO

ESCREVER NÃO É MUITO DIFERENTE DISSO

E COMO UM ATO PRIMITIVO, SE FAZ SEM PENSAR, UM POUCO

A NECESSIDADE É GRANDE PORQUE O TORMENTO É MAIOR AINDA

PORQUE É COMO SE TIVESSE UM VÍCIO MESCLADO A UM DESESPERO

QUE O FAZ BEBER DAS PRÓPRIAS PALAVRAS E O TORNA AINDA MAIS DESESPERADO POR QUERER FALAR E ASSIM BEBER MAIS

E NUNCA PARAR DE DIZER

SEM OLHAR PARA O QUE SE FEZ

PORQUE SE QUER BEBER MAIS

NA MESMA INTENSIDADE QUE SE QUER FALAR

SEJA DIZER POR DIZER

BEBER POR BEBER.